Rua da Guia: memória da Jurema no chão do Recife Antigo

Rua da Guia: memória da Jurema no chão do Recife Antigo

Rua da Guia: memória da Jurema no chão do Recife Antigo

A Rua da Guia, no Recife Antigo, guarda o que muita gente atravessa sem saber. Nos séculos 19 e 20, mestres e mestras da Jurema Sagrada circularam entre pensões e casas daquela quadra. Pontos de Mestra Ritinha e de Mestra Luziara citam a rua pelo nome. Ritinha da Rua da Guia entrou na memória da religião afro-indígena que se formou neste Estado. A calçada é de quem trabalha, vende e mora. Também é território de saber.

Em junho de 2026, audiência na Alepe reuniu juremeiros, pesquisadores e cultura popular para pedir marco e reconhecimento. Em agosto, o projeto que instituía o Dia Municipal da Mestra Ritinha foi rejeitado na Câmara do Recife, em sessão marcada por ofensa à tradição. Rejeitar a data no calendário não apaga a rua. Apaga, no máximo, o recado de que aquela história merecia o papel da Casa.

Imagens de algumas das Senhoras Mestras da Jurema

O mandato do vereador Rinaldo Junior, que já lançou, aprovou e garantiu sanção ao Dia Municipal do Juremeiro e da Juremeira em 18 de setembro, dia da morte de Malunguinho, líder quilombola que ascendeu ao panteão dos cultos afro indígenas nordestinos prepara o lançamento de um projeto para a Rua da Guia como lugar de visita e de reverência à memória da Jurema Sagrada. O foco é preservar o que aconteceu ali, registrar lendas e saberes e receber quem quiser conhecer o território com respeito. Não se trata de fechar o logradouro nem de transformar rua pública em templo de uma só fé. O Estado é laico. A rua continua de todos. O que o projeto faz é o contrário do apagamento: placa, rota de memória afro-indígena, pesquisa e circulação segura de quem cultua sem ser humilhado.

Reconhecer a Guia é combater racismo religioso no mesmo centro onde o trabalhador almoça e o comércio abre. É impedir que “laicidade” vire desculpa para xingar a Jurema e que “reverência” vire exclusividade de um culto. Memória no espaço público é visita, informação e proteção. Quem passa de ônibus tem o direito de saber por que aquela rua pesa na história de Pernambuco. Quem é de terreiro tem o direito de atravessá-la sem medo.

Rinaldo Junior trata patrimônio como trata encosta e creche: escuta quem está no território, protocola e não larga o processo. A Rua da Guia entra nessa conta. O Recife Antigo já vende igreja, sinagoga e pedra holandesa. Falta contar, com dignidade, o pedaço da cidade que a Jurema nunca deixou.

O projeto será detalhado no lançamento. Até lá, o compromisso é este: a rua permanece pública; a memória deixa de ser clandestina.