Professor auxilia, mas escola não é posto de saúde, delegacia nem conselho tutelar

Professor auxilia, mas escola não é posto de saúde, delegacia nem conselho tutelar

Professor auxilia, mas escola não é posto de saúde, delegacia nem conselho tutelar

Quem precisa juntar duas, três jornadas para fechar o mês não prepara aula: sobrevive ao relógio. Estuda menos, acompanha menos o aluno, forma-se menos. O corpo cansa. A cabeça não desliga. A sala de aula vira o único lugar onde o Estado ainda aparece — e o professor paga a conta com a própria saúde.

Os números não mentem. Revisões acadêmicas no Brasil apontam que cerca de 60% dos docentes da educação básica apresentam sintomas compatíveis com burnout. A CNTE — Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, que reúne sindicatos da categoria em todo o país — registra que 66% dos professores já precisaram se afastar, 28% por depressão. Na pesquisa Talis, da OCDE — Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, fórum internacional que compara indicadores de educação e trabalho entre países —, 20,9% dos docentes brasileiros relataram alto estresse e 16,5% impacto na saúde mental; 66,3% sentem pressão pelos resultados dos alunos — bem acima da média dos países pesquisados (45%). No INSS, 2025 fechou com mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtorno mental no conjunto da economia. Entre 2023 e 2024, o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho — iniciativa do Ministério Público do Trabalho com dados previdenciários sobre acidente e adoecimento laboral — apontou alta de 66% nos benefícios previdenciários ligados à saúde mental para profissionais da educação básica.

Pernambuco replica a curva. Os afastamentos por transtorno mental no Estado quase dobraram em quatro anos: de cerca de 6,8 mil concessões em 2020 para 11,8 mil em 2024, segundo o Smart Lab, plataforma de dados de saúde e segurança no trabalho ligada a esse Observatório. Pesquisa da UFPE — Universidade Federal de Pernambuco — sobre a rede estadual de educação integral e a gestão por resultados descreve o mecanismo: contrato flexível, jornada que estica, meta que aperta e adoecimento físico e psíquico. O Sintepe — Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação de Pernambuco, que representa a categoria na rede estadual — cobra política permanente de saúde mental para os profissionais — não psicólogo temporário que some no fim do contrato. Enquanto isso, a rede estadual convive com o limite de seis anos do professor temporário e com a instabilidade de quem não sabe se estará na mesma escola no ano que vem.

A sobrecarga não é só hora-aula. É a escola absorvendo o que outras políticas não resolvem. Fome que deveria ser segurança alimentar. Violência que deveria ser segurança pública. Droga que deveria ser saúde e assistência. Violência doméstica que deveria ser rede de proteção. Sexualização precoce que deveria ser política de infância, não recado solto no conselho de classe. O professor vira assistente social, mediador, psicólogo e segurança — sem formação, sem equipe e sem tempo. Meta de aprendizagem em cima de uma sala que chegou sem café da manhã e com medo. Quem adoece depois é tratado como “licença demais”.

Reduzir a sobrecarga é salário que dispensa o segundo expediente, jornada que deixa hora para planejar, equipe multidisciplinar na escola e governo que assume a parte que não é pedagógica. Piso que se cumpre para efetivo e temporário. Carreira que não empurra o docente para três turnos. Política de saúde do trabalhador em educação com acompanhamento contínuo, não campanha de setembro.

Rinaldo Junior se candidata a deputado federal para tratar essa conta no Orçamento e na lei nacional. Educação de qualidade não se faz com professor quebrado. Quem dá aula não pode continuar sendo o plano B de todas as pastas que falharam.

Rinaldo Junior, candidato a deputado federal — 4013